Etapa 2: Viseu-Aguieira – Parte 2

De volta à estrada. De volta à nossa segunda etapa desta aventura fotográfica pela Estrada Nacional 2. Tínhamos previsto terminar em Santa Comba Dão, ou Vimieiro, logo a seguir. Mas começamos a questionar, pois passa pouco mais das 14:00 e de Tondela a Sta Comba Dão é um pulinho. Um pulo de cerca de 15 kms. Mais centímetro, menos centímetro.

Chegada a Santa Comba Dão pela EN2 (ou Av. General Humberto Delgado)

Depois de entrarmos na cidade, que fica ali apertadinha entre os rios Mondego e Dão, à quase mesma distância de Viseu e Coimbra, o objetivo era ir até ao Miradouro do Outeirinho, para percebermos se podíamos fazer ali o pôr do sol. Se a vista sobre o rio Dão, IP3 e, lá em baixo, a Nacional 2, até é agradável, questionámos se, mesmo assim, não seria melhor tentar arriscar mais junto à albufeira da barragem da Aguieira. A bem da verdade, também por aqui, por Santa Comba Dão, seria possível obter imagens fantásticas, mas quando uma pessoa mete uma coisa na cabeça… Então se for fotógrafo…

Vista do Miradouro do Outeirinho
Azulejos no Miradouro do Outeirinho

Como ainda tínhamos muito tempo pela frente, aproveitámos para fotografar um pouco desde o miradouro, descemos até ao centro da cidade – muito agradável, aprazível, cuidada. Tem muito potencial fotográfico para lá voltarmos a outra hora do dia, com outras condições de luz. Nesta volta, não muito grande porque a cidade também preferiu ser como a sardinha, acabámos por sair na… entrada, junto à Estrada Nacional 2 (Av. General Humberto Delgado).

Aqui, ficámos a admirar o painel que representa a Lenda de Santa Comba Dão. Enquanto ali estávamos, fomos abordados por um local que se prontificou a tentar explicar o que representava a pintura. A amabilidade e simpatia foi muita mas, no final, a explicação ficou curta e sem que percebessemos bem a história. Ou a lenda. De qualquer modo, muito obrigado a ele. Naturalmente, seria impossível ficarmos na ignorância e, uma vez de regresso, fomos à procura da lenda representada naquele quadro. Embora existam outras descrições, todas elas são semelhantes à que encontrámos no site da Câmara de Santa Comba Dão e que reproduzimos a seguir:

Painel com imagem representativa da lenda de Sta Comba Dão

Nas margens do Rio Om existiu um convento onde habitavam meia centena de jovens freiras, virgens consagradas ao Senhor.

Comba era o nome de uma madre abadessa, que jovem se tornou mártir e santa: Santa Comba.

No tempo em que os mouros conquistaram as terras dos Cristãos, avançando para norte, existiu um valoroso rei mouro, de nome Almançor. Após a tomada de Coimbra, o rei Almançor e as suas hostes acabaram por se aproximar do convento onde as freiras, já sabendo da terrível notícia, rezavam de forma a dominar o medo que as consumia.

A calma triste e sombria do interior do templo contrastava com o ruído da peleja e com o clima de morte que pairava no exterior.

Estando as irmãs absortas nas suas orações, bateram à porta com violência. A madre Comba recomendou-lhes calma, não as deixando sair do local do culto. Espreitando pelo postigo, apercebeu-se que as terríveis suspeitas se concretizavam: do outro lado da porta encontrava-se um jovem sarraceno.

Resolveu ganhar tempo alimentando uma conversa no decorrer da qual ficou a saber que o rei Almançor tinha ordenado ao jovem Aben Abdallah que tomasse para si e para os seus soldados as freiras do convento da margem do Rio Om.

Ao saber o que as esperava, a madre pediu que as matasse a todas, ao que o homem retorquiu não poder destruir o que lhes viria a servir. Impaciente, acabou por pôr a descoberto o rosto de Comba e, ficando admirado com a sua juventude e beleza, reservou-a para si. Zangado, ameaçou que se as conversas não terminassem por ali, entraria à força no convento.

A madre abadessa, percebendo que nada poderia fazer para poupar as monjas ao seu destino cruel, deixou passar o primeiro soldado de Aben Abdallah. Este ficou igualmente espantado com a beleza e juventude de muitas freiras e não demorou muito a demonstrar a sua preferência.

Comba chamou a freirinha, beijou-a na testa e a este sinal a jovem sacou do hábito um punhal que cravou no coração. Todas as monjas repetiram o gesto e tombaram inanimadas.

O guerreiro, aterrorizado e perplexo, fugiu chamando pelo seu chefe, que se precipitou no convento. À sua frente a sangrenta cena! Procurou desesperado pela sua preferida, mas Comba jazia nos braços das suas companheiras.

Quando Aben Abdallah contou o sucedido ao grande Almançor este não conteve a sua fúria e desdenhoso vociferou: “Porque não as mataram logo? Essas mulheres não sabem ser gente! “.

Mas os milagres do martírio da jovem bela abadessa permaneceram na memória do povo.

No local do convento surgiu uma povoação que, para se distinguir de Santa Comba do Alentejo e por se situar nas margens do Rio Om, se passou a chamar Comba D’Om. Com o decorrer do tempo o nome evoluiu para Santa Comba Dão.

Satisfeitos, descemos pela Nacional 2 até à nova ponte “Velha” sobre o rio Dão e onde, na estrada, existe um Memorial às Invasões Francesas. Por aqui estava feito, faltava ainda mais de uma hora e meia até o sol descer para descansar e ainda queríamos passar pelo Vimieiro antes de concluirmos a etapa na Aguieira (ou lá bem perto).

Estrada Nacional 2 com o Dão a correr mesmo ali ao lado
Memorial às Invasões Francesas

A paisagem que nos acompanha desde Viseu não é tão imponente como quanto aquela que nos foi apresentada até Castro Daire. Mas consegue atrair sem ser espetacularmente bonita – como aquelas mulheres e homens que, não sendo o pináculo da beleza, conseguem ser cativantes, ter o seu próprio charme.

Em Vimieiro, pode parar o carro junto à estação e aproveitar para esticar as pernas, caminhando na plataforma junto às linhas. Cruzar-se-á com uma abandonada casa de guarda de linha. Um pequeno charme deixado ali ao “canto”, quando já tanta vida teve e viveu. Uns metros mais abaixo, dá-se o início (ou fim) da Ecopista do Dão – se gosta de andar de bicicleta, fica a sugestão para a fazer. Convém estar minimamente em forma, pois ir a Viseu e regressar são cerca de 100 kms, mas que valem bem a pena o esforço.

Estação de Santa Comba Dão, em Vimieiro

Assim  que saímos da rua da estação, viramos à esquerda e passamos por baixo do arco da ponte da linha do comboio, não andamos mais do que uns 200 metros para chegarmos à casa onde nasceu o Dr. António de Oliveira Salazar, Ex-Presidente do Conselho de Ministros de Portugal, em 28 de Abril de 1889. Uma casa humilde, baixa, branca, com rebordos na cor verde e que terá sido reconstruída pela câmara depois dos estragos que o mau tempo terá provocado em 2014. Por cima da janela uma placa com a frase: “Aqui nasceu em 28.4.1889 Dr. Oliveira Salazar, um senhor que governou e nada roubou”. Estamos, se não nos falham as contas e também não querendo roubar nada, junto ao Km 219.

Por aqui pouco há mais para ver. A luz do sol baixa começa a oferecer uma cor dourada, bonita, única, principalmente agora no outono. Significa também que já não temos assim tanto tempo e que dali até à albufeira da barragem da Aguieira já não dá para fazer muitas paragens.

Até aqui e durante esta etapa 2, não tivemos qualquer dificuldade em encontrar e circular na EN2. Se na etapa 1 aqui e ali ficámos um pouco às escuras, nestes pouco mais de 50 quilómetros tudo correu bem. Foi quase sempre seguir à risca o lema “sempre em frente e depois siga, siga, siga…”.

[ Lá fora a chuva abrandou, o vento sopra mais lento, embora frio, as luzes já estão ligadas, o fim de dia está a chegar. Há umas abertas nas nuvens, que podem oferecer um final de dia fotográfico cheio de cor. Ou então fecha tudo novamente e sobra o cinzentismo de um dia de outono mais rigoroso. Um-dó-li-tá… Seja como for, temos este texto para terminar. Está quase. ]

Estamos junto ao Km 225, situado ali ao lado da estação de serviço da Cepsa e do restaurante A Lampreia. Aqui a N2 é (foi), durante poucos quilómetros, engolida pela IP3, mas disso daremos conta na próxima etapa. Por agora, ficámos bem junto à albufeira da Aguieira, com uma paisagem de cortar a respiração, em que ficamos na dúvida para que lado havemos de apontar a câmara. Decisões, decisões…

Albufeira da Barragem da Aguieira

A EN2/IP3 lá em baixo

Pare o carro, ande a pé, passe por baixo da pontes do IP3, desça até bem perto da água. Aproveite para fazer um lanchinho, ou para se sentar, com a sua cara-metade, nas pequenas pedras para assistirem ao pôr do sol, ao final de mais um dia. Se lhe interessam algumas curiosidades, a albufeira submergiu as aldeias de Breda (município de Mortágua) e Foz do Dão (município de Santa Comba Dão). Ainda que com algumas restrições, desenvolvem-se algumas atividades de recreio e lazer nas suas águas, tais como a pesca, navegação à vela e a remos, banhos e natação. Dependendo da altura do ano, pode ser mais ou menos concorrida, mas nunca como o Algarve em agosto.

Nada melhor do que um sítio calmo e com esta paisagem para terminarmos a nossa segunda etapa

Foi mais um dia na Estrada Nacional 2. Foram mais alguns quilómetros percorridos em direção a Faro. Mais imagens marcantes as que fizemos e, principalmente, tivemos o privilégio de observar. A vontade de regressar à aventura é mais do que muita. Já faltou mais, mas ainda falta tanto!

Passo a passo, de Chaves até Faro.

 

Playlist musical II
Já agora, se ficaste interessado(a) nas músicas que ouvimos enquanto escrevemos este texto, aqui ficam os links para o Spotify. Esperamos que gostes.

https://spoti.fi/2NgUgAM
https://spoti.fi/2qQIBB3
https://spoti.fi/2JrhTFF
https://spoti.fi/32SUnZz

3 Replies to “Etapa 2: Viseu-Aguieira – Parte 2”

  1. Parabéns pela descrição desta parte da viagem pela EN2. No entanto com a construção da Barragem da Aguieira (deveria se chamar Barragem Foz do Dão ) foram 3 as aldeias submersas Foz do Dão localizada na confluência entre o rio Dão e o rio Mondego a mais próxima da barragem, a Brenda no rio Liz e a Senhora da Ribeira no rio Mondego.
    Boa viagem!!

    1. Muito obrigado Miguel, por visitares o nosso blogue sobre esta maravilhosa viagem.
      Mais atualizações para breve!

Deixe uma resposta